sexta-feira, 29 de maio de 2015

MEMÓRIAS PARA MINHA FILHA

PARTE 1
Deve ter sido por volta de final de 80, início de 90. De 1890. Seu trisavô nasceu. Não se sabe ao certo, a não ser que foi  em uma vila da Alemanha, que era pobre... e por desespero ou coragem largou sua terra e veio se aventurar no Brasil.
Pode ser que era um aventureiro, acometido dos mesmos males que empurraram tantos europeus para o mar, em busca do que havia atrás do horizonte... Pode ter sido Um refugiado. "klein" era um nome comum que se dava as pessoas despossuídas ou convertidos para se livrarem de uma punição
maior.
Mas provavelmente era um camponês pobre que veio em busca de novas
oportunidades. Veio num destes cargueiros a vapor que cruzavam o atlântico. Provavelmente viajou entre uma multidão de iguais, maltrapilho e sem muitos recursos. A migração de alemães para o RS foi financiada, organizada e patrocinada pelo governo. Já em SC foi um empreendimento particular, onde os colonos pagaram pela viagem e pela hospedagem em terras brasileiras. Vinham com objetivos de trabalho.
Sabe-se que aqui se casou e teve filhos. Estabeleceu-se no município
de Biguaçu, o destino dos emigrantes germânicos desta época. Mas seus trisavôs faleceram cedo. Seu bisavô não tinha ainda 5 anos. Como de costume os órfãos eram criados pelos padrinhos. Eram "criados", como diz o nome em nada se compara com as adoções de hoje. Seus bisavôs perderiam pra sempre a condição de filho. Não
saberiam o que é proteção dos pais. Desde pequeninho teve que trabalhar. Nunca frequentou uma escola. Morreu sem aprender a ler e
escrever.
Talvez por isso seu bisavô nunca falou sobre sua infância e sua ou adolescência. Buscamos  sempre esquecer as dores e os sofrimentos, muitas vezes não falando sobre eles.
As memórias de seu bisavô Ernesto começa no lombo de uma égua de pelo
baio. Uma mala de couro. Uma espingarda 28 cano longo. Um chapéu de couro e capa pra chuva e para o frio. Menos de quatorze anos o separavam da morte dos país.
Nunca herdou nada de seus padrinhos e país adotivos. Nunca falou sobre eles...nem bem nem mal... e nunca cobrou qualquer coisa desta gente... que também  emava contra a vida para manter e sustentar seus filhos legítimos. Dos 5 irmãos que foram separados com a morte dos pais, pouco se sabe. O tempo foi afastando até as  embranças. Cada um para um canto. Cada um com um padrinho. Fala-se de um tal Pedro, que foi adotado por um capitão de navio que o aceitou no porto de Tubarão e que soubera-se que seguiu a carreira do padrinho. Mas nunca ninguém o viu ou trocou informações.
Subindo o rio biguaçu, há uns 20 km da foz, fundou-se uma colônia sólida de alemães, em Antonio Carlos. Por medo dos "bugres" desta região, que eram muito selvagens ainda no séc. XIX, subir a serra e estabelecer-se nos campos de planalto passou a ser uma opção bastante atrativa para os colonos do litoral.
Aos 19 anos seu bisavô Ernesto subiu a velha trilha Biguaçu-Lages, levando uma semana inteira para subir os caminhos tortuosos que levam até os campos de altitude e as florestas de araucária da região.
Gostou dos campos serranos , mas acabou amarrando a égua cansada numa num pé de pinheiro novo nas serrinha de Campos Novos. Precisamente nas terras de Abdon Batista.Capela de Santa Catarina. Lá se enturmou com os Martendais, os Mercabôs, os Vilperts. Depois mais tarde vieram os Pauli, os Conradi, os Besen, os Kreff, os Souzas
e tantos outros que colonizaram aquelas pastagens.
Arrendou dois alqueires de roça, “às meias”, de Ângelo Martendal. Cortou a mata, limpou com queimada, “coivara” como nominavam esta técnica. Plantou mandioca e voltou para buscar Luzia sua bisavó que o aguardava em Biguaçu.

Luzia perdeu seus pais mais cedo ainda, sendo criada também  pelos padrinhos/tios, irmão mais velho de sua de sua falecida mãe. Foi criada pela família de João Kesser. Também não soube o que é amor de pai, mas sempre dizia que sentia saudades da sua infância, das brincadeiras e da escola primária que teve o privilégio de fraquentar.
No casamento, conta que ganhou um jogo de lençóis, um jogo de louça (
que agora está com sua tia Sandra ) e uma boneca de louça. Feliz, puseram tudo numa
charrete e subiram de novo a serra para colher a mandioca.
Ficaram pousando na casa dos Martendais até que finalizassem a primeira casinha. Dois cômodos de chão batido e paredes de taipa ( barro e cipó). Telhado de capim seco e arrumaram um colchão de palha de milho novo, e travesseiros de flor de marcela, cedidos pelos dona Carolina Martendal.
Em nossa fantasia classe média paulista, imaginamos os momentos
românticos e carinhosos do casal jovem e recém casados. Nunca admitiram. Pode ser que estejam falando a verdade, pois nunca conheceram ternura nas suas jovens vidas. Poderiam ter aprendido. Mas as histórias desses tempos são histórias de trabalho. De acordar cedo. De plantar e colher mandioca. De ralar toda a produção. De
passar horas no fogo secando a farinha. Se ensacar e transportar até a
venda. Depois cortar mais mata. Queimar. Plantar mais roça de mandioca.
A mandioca é uma das melhores culturas agrícolas para o pequeno
produtor. A colheita não precisa ser feita imediatamente após o
período ideal. Não há a urgência de uma colheita de outros cereais, que perecem se for feita fora do prazo. Nas entressafras, aproveitava-se para levantar uma parede de madeira, erguer um cercado para galinhas e porcos, cultivar uma horta.
Nesse ritmo, nas Serras Profundas de Santa Catarina, seus bisavós
foram comprando pedacinho por pedacinho de terra, até que dez anos
depois já eram proprietários de terras respeitáveis na região.
Cultivando terras boas, criando gado leiteiro, seus bisavós prosperavam no pós-guerra, principalmente com os incentivos desenvolvimentistas da era Vargas e posteriormente do projeto de Juscelino.
Passatempo e diversão tinham somente no culto de domingo. A missa na
Capela de Santa Catarina ocorria uma vez a cada dois meses. No entanto, todos se reuniam aos domingos para a celebração do culto. Mulheres com seus vestidos alongados e floridos, trocavam receitas e experiências. Os homens, sempre de terno e chapéu, falavam de gado, cavalos enquanto cheiravam rapé. Duas vezes por ano havia uma festa. As famílias se reuniam para ajudar e outras comunidades vinham prestigiar. O dinheiro das vendas de bebida e churrasco eram destinados a reformas e melhorias da capela e do salão de festas. As meninas e os meninos aproveitavam para pequenas  estripulias amorosas.
Seus bisavós eram populares na comunidade. Falantes, geralmente dominavam as rodas de conversas que participavam.
Sua bisavó Luzia era famosa pelas respostas rápidas e espirituosas.
Desde jovem era temida pela sua língua afiada. Mas cultivava as amizades. Não media esforços para ajudar uma amiga necessitada. Acudia a todos quando havia enfermos em uma família. Era rezadeira e seguia um ritual metódico de visitas regulares aos mais idosos e enfermos da região. Com o tempo e com o peso que foi adquirindo, tornou se uma Dona Lucia muito respeitada por todos os vizinhos e parentes. Seu
prestígio era medido em número de afilhados que batizou, crismou ou testemunhou casamentos.
Seu bisavô era muito festeiro. Falava sempre mais alto que os outros e acabava por dar a última palavra, inaugurando uma tradição peculiar na família. Quando ainda jovem, tratou de comprar o melhor cavalo de "carreira" da região. Cavaco era um cavalo baixinho mas muito rápido. Sempre após o culto faziam apostas e disputavam em raias improvisadas. Seu bisavô era o melhor corredor da comunidade. Se gabava muito disto. Era um homem orgulhoso. Não  gostava de ser  contrariado e muito menos humilhado em qualquer tipo de disputa. Quando isso acontecia ficava bravo e saía de perto, rompendo as relações com quem o desafiava. Nunca foi de briga. Não há notícia de alguma briga de fato de seu bisavô. Mas não admitia desaforo. Raramente perdoava um desafeto. Também não era vingativo. Se afastava e ficava remoendo por um tempo o
incidente. Depois tocava a vida. E foi por causa de um incidente desta natureza que um dia seu bisavô resolveu vender tudo o que construíra em Addon Batista e comprou outra
propriedade bem menor em Ibicaré. Cidade onde seus Avós viveram e eu nasci. Mas isso fica para depois.
A história nunca foi muito bem esclarecida. Mas o que se sabe é que seu vizinho de propriedade, um dos filhos do Angelo Martendal, possuía um bom moinho d´água, o melhor da região e moia mandioca e farinha de milho. Já andavam as turras por causa da criação que andara pulando a cerca e comendo quase meio alqueire de milho de seu bisavô. Mas o fato é que o vizinho pôs o seu moinho a venda. Seu bisavô de pronto manifestou interesse e fecharam o preço, com um curto prazo para que ele pudesse levantar o dinheiro da entrada. Ocorre que no culto de domingo, meu avô ficou sabendo que o vizinho fechara o negócio com outro amigo, desfazendo a palavra dada ao seu
bisavô. Foi uma confusão grande. Palavões, impropérios, ameaças, maldições. Não passou disso. Mas sei  que seu bisavô ficou muito magoado e desgostoso e resolveu vender tudo e se mudar. Não se sabe se fizeram mal negócio. Mas venderam toda a criação de gado, porco e galinha. Nunca se queixaram  do negócio. Fala-se até hoje de uma junta de boi carreiro, muito bons de arado que nunca mais acharam outro igual.
Deixaram com a  propriedade. Acho que se arrependeu por não  ter levado junto com a mudança para Ibicaré. Levaram os móveis, já todos de madeira boa, a cristaleira com todos as louças do casamento.
Foram acompanhando o caminhão do Gildo Foppa, com a Ford Rural mais bem equipada da região, que seu bisavô havia comprado para  que seu avô, já maior de idade, pudesse levar os pais para Abdon fazer as compras e participar mais vezes da missa dominical. Sempre davam carona para os menos afortunados que não possuíam nem ao menos um fusca.

A propriedade de Ibicaré era menor, mas as terras e o clima pareciam ser mais promissores. Era uma faixa de 20 alqueires que ia do cimo da serra com mata nativa, uma parte plana ao centro de terra cultivável e as encostas com pasto  até as margens do rio do Peixe. O negócio englobava uma casa de madeira antiga mas muito bem conservada, de arquitetura estilo vêneto, com porão e sótão. Havia unas 5 nascentes na propriedade, dois córregos, um pomar e um parreiral onde já se produziam boas colheiras de uvas niágara e um vinho adocicado que era consumido pela família. Com parte do que sobrou do negócio, compraram de seu outro bisavô, Antônio Bezem cerca de 30 Pinheiros do Paraná adultos, o que foi suficiente para fazer uma casa nova para seu Avô, que acabara de casar com sua avó, filha de Antonio Bezen.


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