SOBRE CACHORROS E DEMOCRACIA.
Lord é o meu cachorro. É um vira-lata de porte grande com cara de
Labrador. Ele sabe sentar, deitar, dar a pata, pegar o jornal, fechar a porta, fazer necessidades no cantinho
do jornal e andar sozinho no canteiro central da avenida. É um cachorro
adestrado, basta um comando e ele prontamente me atende. Quando saio para
passear com Lord, solto ele no canteiro central da avenida e me alegro vendo-o
trotando altivo, rabo pra cima e um sorriso esnobe, principalmente quando
passamos por outros cães desengonçados, como o Torresmo, o Rottweiler do
vizinho, que todo dia arrasta seu dono pela coleira: bárbaro!. Lord anda
direitinho ao meu lado e pára e senta ao meu comando. Às vezes nos deparamos
com algum vira-lata de rua. Cachorros sem modos que atravessam a rua fora da
faixa. Atrapalham o transito. Outro dia um deles ainda olhou com desdém para
Lord, que permanecia sentado ao meu lado. Em breve a carrocinha o recolheria.
Mas aquele olhar ficou a semana toda me incomodando.
Mais tarde, lendo Michel Foucault, em seu famoso livro Vigiar e
Punir, acabei me surpreendendo com as semelhanças do meu mundo e o mundo que
criei para Lord, meu cachorro.
Foucault ao estudar as reformas penais do início do século XIX,
observou que os métodos violentos e corporais de punição, como o suplício
público, onde os castigos corporais exemplares estavam no centro das
tecnologias punitivas, passam a dar lugar a novas técnicas mais sofisticadas,
onde o centro deixa de ser o corpo, e passa a ser a mente, através de técnicas
de controle do tempo, do silencio forçado, da disciplina coletiva, das
micropenalidades corporais constantes e prolongadas dentro de uma prisão.
O mundo estava mudando e já não havia mais espaço para o poder
soberano e inquestionável do nobre ou do senhor feudal. Surge uma nova
tecnologia para punir, com controle minuncioso das operações do corpo, não mais
baseada no castigo físico, mas na disciplina das prisões. Trata-se de métodos
sofisticados de adestramento do criminoso, com controle de horários e atividade,
sob uma vigilância constante, para que ele volte seu comportamento para dentro
das normas, dentro da curva.
Foucault acaba por concluir que as práticas disciplinares própria
da prisão têm um alcance que vai muito alem dos muros da instituição, ao constituir
tecnologias de poder que, partindo das práticas prisionais, espalham-se por
toda a sociedade. Essas técnicas de “adestramento”, de controle do tempo, de
disciplina organizativa são adotadas com muito êxito nas fábricas, nas
empresas, nos nossos tribunais e até no interior das famílias e das escolas,
que se utilizando de tais técnicas, acabam desempenhando um papel central na
manutenção das relações de poder na sociedade moderna. Nas palavras do
estudioso: “ há uma rede carcerária sutil envolvendo todo o corpo da sociedade
moderna”. Aprendemos desde
cedo sentar, deitar e dar a pata.
Uma vez adestrados, e só a partir de então, foi possível soltar
Lord no canteiro central da avenida. Da mesma forma, os que dominam podem
lançar mão de sistemas ainda mais sofisticados de controle, como a
democracia. Como meu cachorro Lord, somos livres para andar soltos no
canteiro central da avenida, desde que sempre vigiados e obedecendo as normas.
Aos que não se adaptam, aos que andam fora da curva, que ‘defecam’ fora do
jornal resta-lhes as focinheiras ou a carrocinha.
Passei a olhar diferente para o Lord, que sem saber, é mais
prisioneiro que Torresmo, apesar de andar feliz pelo canteiro central da
avenida. Não tive pena de Lord, afinal, sou eu o adestrador, mas pensei em nós,
que vivemos abanando o rabo para nossa liberdade democrática. Democracia
para os adestrados.
Claudio Klein
Claudioklein66@gmail.com
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