quinta-feira, 4 de junho de 2015

MEMÓRIAS PARA MINHA FILHA (PARTE 2)



JK assumia a presidência e surfava numa onde de otimismo e prosperidade do povo brasileiro. O Brasil crescia, “cinquenta anos em cinco’, construía-se Brasília, a Indústria crescia, principalmente a alimentícia com a Perdigão nas margens do Rio do Peixe na década de 30 e posteriormente a Sadia criada na vizinha Concórdia em 1944 absorvendo a grande demanda de carne de frango e suína além da comercialização de grãos utilizados para ração animal.
Seus bisavós prosperavam, como todo pequeno proprietário do Sul do país prosperava mediante jornadas de muito trabalho na lavoura. E como o projeto era fazer o país crescer sobre rodas, não tardo e seu Ernesto comprou uma rural de segunda mão, mas muito bem conservada. Ter um carro naqueles cafundós era algo importante, no que pese o maior uso que se deu a Rural foi fazer o “Nino”, apelido de seu avô, leva-los mais vezes à missa dominical na igreja matriz de Abdón Batista, há uns 17 km do povoado de Santa Catarina onde moravam.
Mas não era só economicamente que a região prosperava. Havia otimismo no ar. E mesmo nos mais afastados rincões do interior do Brasil, a onda libertária e irreverente dos anos sessenta, que varria as civilizações centrais, fazia borbulhar o coração dos jovens​ do interior de SC.
O espírito da geração Rock in Roll contaminava até instâncias onde o “vanerão’ e a “rancheira’, ritmos tipicamente sulistas, dominavam nos salões de baile e o sertanejo raiz de Tonico e Tinoco e Tião Carreiro e Pardinho eram os hit do momento. 
Não sei bem ao certo, mas pelos registros fotográficos da juventude de seu avô Antônio, as tendências que dominavam no planalto central catarinense estavam bem mais alinhadas com os centros urbanos do sudeste ​ do que com as pradarias do extremo sul do país.
No lugar das bombachas e dos chapéus campeiro e botas cano alto, traje de festa de todo gurí que ​estava beirando a idade de namorar, típico do estado vizinho mais ao sul, seu avô e amigos posavam nas festas com ternos justos, de to​m único e escuros, sapatos pretos bico fino, meias de seda, gravatas finas e colarinho e lapelas compridas.  O toque final viria com o gel e brilhantina, indispensável para manter o topete. ​ Não havia cinema nem televisão, mas se via réplicas de jovens Presley e James Dean ( aliás seu avô tem uma foto que é a cara dele ).
Nunca pesquisei a fundo essa “anomalia” em terras de domínio gaúcho. Talvez se tratasse de uma rebeldia dos catarinenses,  resquícios da guerra dos farrapos, onde os “barriga verdes” como eram chamados, tomaram uma “cossa” dos gaúchos em algumas batalhas decisivas. O fato é que a cultura gaúcha, tão agressiva e dominante,  atingiu menos aquela região do que a tendência mundial que vinha com a onda de rebeldia e ventos libertários desta década.
Para as mulheres os ventos da liberdade não sopraram com tanta força. Sua avó Maria foi vista algumas vezes com uma "mini" saia com dois dedos acima do joelho. Mas somente nas festas particulares em que eram dadas na casa de seu bisavô Antônio Besen, sob a supervisão da sua bisavó Virgínia.
Seu avô era um rapaz muito bonito.  Não se sabe se foi namorador. Nunca comentou nenhum caso amoroso antes de se casar com sua avó. Já sua tímida e recatada avó Maria Erandina ( Dina, como era chamada ) ,  por um bom período gerou crises de ciúmes em seu avô por um namorico que teve com o ​Dejalma, um cultivador de mel de abelha ( que seu avô afirmava ser o pior de SC:“ mel aguado!” ) e também fotografo oficial da famílias da região.
​Dizem que seu avô Antonio teve uma infância muito mimada. Nasceu em 43, num momento de prosperidade de seus bisavós. O pós guerra foi bom para o sul do Brasil. Os produtos agrícolas e principalmente a criação de animais rendiam boas economias para as famílias de pequenos produtores do Sul. Prosperavam com muito trabalho e com o florescimento da indústria alimentícia da região
Apesar da dura rotina de trabalho de quase 12 horas diárias na lida, as coisas tinham melhorado para os “Klein”. O nascimento do primogênito trouxe algo que não se conhecia ou não se manifestava nos seus bisavós: ternura. Desde então, seus bisavós se mostraram as pessoas mais amáveis do mundo com crianças. Todas as crianças com quem conviveram, sejam afilhados, netos, vizinhos sempre foram muito bem tratados e tem uma lembrança muito amável do Seu Ernesto e da Dona Lucia.
Logo após o nascimento do primogênito, seu bisavô teve caxumba mal curada e acabou "descendo" e inflamando os testículos, esterilizando-o. Não era algo tão incomum nessa época sem médico nem hospitais. Talvez tenha sido o fato de se verem reduzidos a um filho único, num mundo cheio de famílias onde a média era 10 filhos. Talvez porque conseguiram descobrir uma ternura que nunca tiveram ou receberam na vida na relação com o filho. O fato é que seus bisavós não demonstravam a dureza que a vida lhes impusera, quando se tratava de afagar uma criança.
Desta forma, consta que seu avô cresceu com todos os mimos e caprichos que uma criança poderia receber. ​Talvez exagerado. Contam que era uma criança muito "bardosa". Choramingava o tempo todo e suas chantagens eram prontamente atendidas com presentinhos e concessões de caprichos. ​Pelos relatos dos seus bisavós e do que sua avó Maria ouviu falar dos antigos, seu avô Antônio foi uma criança muito bem tratada. Mimada, na verdade. Tinha sempre boas roupas e sapatos, ia a missa com os cabelos lambidos, na primeira fila, e era ele que levava ao altar as gordas doações que seu bisavô fazia na hora da oferta da missa​, aos olhos de todos, claro. Há registro fotográficos de sua infância, já por si só algo raro para a época, onde seu avô é visto em boas roupas, com chupetas sofisticadas ( que usou até os 5 anos de idade ), cavalinhos de pau com madeira trabalhada e até um pônei ou um cavalo nanico, não se sabe ao certo, mas ainda criança se exibia em cima de arreios infantis que não era para qualquer um.
Seu avô tem versão diferente de sua infância. Reclama que sua mãe lhe comprava um sapato novo 2 números acima do seu e o fazia usar até ficar 2 números menor, a ponto do pé ficar torto dentro do sapato tão pequeno. Lembra que quando ia ao culto aos domingos, tinha que vir descalço até perto da igreja e colocar o sapato atrás da sacristia e ficar com o sapato apertado, lacrimejando de dor até acabar o culto. Diz ele que até hoje tem trauma e quando vai numa missa parece que sente os pés apertados lhe queimando os dedos como na sua infância. Por isso vai pouco à missa.
Suas melhores lembranças são de uma vida solta e livre pelos potreiros e vassourais caçando, montando mondeis e pescando nas sangas e riachos da propriedade. Sempre descalço.
Conta que a paixão pela caça e pela pesca veio desde cedo, e o acompanhou pela vida toda. Só deixou de fazê-lo quando o AVC o impossibilitou, já com mais de 60 anos. Mesmo depois de ter mudado para Ibicaré, constatou que aquela propriedade era ideal pra seus passatempos. O cimo da serra era recapado de uma mata nativa, com muitos pássaros, principalmente o Jacú, uma galinha do mato, além de cotia e tatu. No outro extremo da propriedade estava o Rio do Peixe, que como o nome já diz, oferecia várias modalidades de pesca, desde Lambaris, Bagres e Jundiás nas corredeiras, Cascudos nos remansos e Carpas nos poços de água parada. Bastava uma chuva que impedisse o trabalho na roça, que lá estava ele com suas linhas de pesca descendo o potreiro rumo "à pedra" lugar preferido para pegar peixes ligeiros de corredeiras como o lambari e o jundiá. 
Quando era menorzinho, em Abdon Batista, todos os dias montava armadilhas e pegava muitos pássaros. O que cantavam ou tinhas penas coloridas como Canários, Azulão, Pintassilgos, Coleirinha, Sanhaços, Cardeais, Curiós, e Papagaios, eram preservados e trancafiados em gaiolas ou em um viveiro que seu bisavô, outro aficionado por pássaros, construíra atrás do galinheiro. Já os gorduchos e feinhos com os Pombos, Bem-te-vis, Sabiás, Nambus, Saracuras e até Sirienas tinham como destino a panela de sua bisavó.
O “amor” aos pássaros é um capítulo à parte na história dos Klein das primeiras gerações. ​A casa de seu bisavô era decorada com dezenas de gaiolas com as mais variadas espécies de pássaros cantadores. Ele mesmo aprendera a construir essas masmorras onde, para seu deleite, sentenciavam ao cárcere perpétuo lindas avezinhas. Dizia que era amor. Demonstrava amor pelos seus cativos, que com o tempo, acabavam se afeiçoando a ele também, vindo lhe comer na mão. Havia aos montes na natureza e seus cantos eram ouvidos a qualquer hora do dia em qualquer lugar. Não havia muito motivo para o aprisionamento. Mas ninguém o demoveu desta ideia até os últimos dias de sua vida, quando doou todas suas aves para um amigo, que ele confiava, pois dizia que este amigo era de confiança e amava seus pássaros e não iria soltar pra morrer de fome na natureza. ​A explicação mais plausível e menos cruel que encontrei para justificar esse amor, que era real, foi justamente o fato ​de que para seu bisavô, assim com para inúmeras pessoas simples que tiveram um passado difícil e passaram necessidades, ter o que comer e ter onde morar era algo essencial, de forma que quase tudo o resto era visto com supérfluo, quase que desnecessário, inclusive a liberdade e outros valores que tanto preservamos hoje.

Mas a vida dos klein´s desta época sempre foi marcada por muito trabalho e muita disciplina. A vida no campo, ao contrario do que possa parecer, só prospera quando se tem disciplina e certa sistematicidade. Pelo menos é assim com os colonos do sul do país. No campo a vida corre num círculo eteno. Diariamente. Semanalmente. Anualmente. O tempo é circular. Repete-se diariamente. Repete-se anualmente sempre do mesmo jeito a cada estação do ano. E nesta luta eterna contra a natureza, ora dominando-a, ora sofrendo com ela, na verdade, nesta contradição, neste movimento eterno de interação dialética faz com que o homem do campo,  na busca por humanizar os espaços naturais, acabe se tornando um ser mais “natural” do que os povos da cidade. Seus antepassados “kleins” tiveram muito dos “jeca tatu”, dos ‘mazaropes”, dos matutos todos representados como o homem do campo brasileiro.
Acordar cedo era uma regra sagrada. Muito cedo. Cinco da manhã, todos os dias. Pra tirar o leite, tratar as criações e preparar-se para a primeira jornada na roça.​ Seu avô, ainda há alguns anos debatia com seu bisavô ( sempre aos berros ) que era uma idiotice fazê-lo levantar-se às 5 hs da manhã, com temperaturas abaixo de zero, pra picar capim para as vacas, que só comeriam bem mais tarde, pois estavam ainda na estrebaria. Mas as coisas "eram assim, porque eram assim" simplesmente respondiam os seus bisavós. E seu avô ia todo dia, choramingando de nojo, rachando os garrões no frio da geada, mas ia, desde pequeno.
Sua bisavó tirava o leite ainda escuro e seu bisavô tratava os porcos.
Logo em seguida pegavam os apetrechos, a marmita e iam pra roça, "pegar a fresca". Lá pelas 8 hs paravam para o café da manhã, que era um pão com “chimia” e nata ou queijo. Lá pelas 11hs voltavam pra casa. Sua bisavó finalizava o almoço, que geralmente faltava só fritar uma carne na frigideira com banha de porco enquanto seu bisavô cuidava dos porcos e das galinhas. Seu avô aproveitava para vistoriar as armadilhas próximas da casa.
Seu bisavô tinha o hábito de beber um cálice de Bitter Águia. “Abria o apetite e engrossava o sangue”. Quando não tinha Biotonico Fontoura ou Sadol em casa, fortificantes indispensáveis para as crianças de minha geração, ele nos dava uma colher de Bitter, dizendo que fazia bem do mesmo jeito.
Após o almoço, quando era época de fruta, se sentavam na “área” da casa e descascavam uma baciada de laranja, goiaba ou iam buscar uma melancia que ficava " gelando" mergulhada dentro da sanga há alguns metros da casa. Todos deitavam e dormiam até as 16hs, quando se voltava pra roça até escurecer.
Á noite, o ritual de recolher e tratar as vacas, dar ração para os porcos, recolher as galinhas e pegar os ovos era sagrado, inclusive aos finais de semana. Todos os dias. Durante todo o ano.
Em Abdon Batista não havia eletricidade ainda. Não no interior, na roça. Seu avô passou a infância sem saber o que era uma lâmpada. O rádio era a pilha. O “repórter Esso” era o programa sagrado, com as reportagens do Brasil e do mundo. Sua bisavó não gostava, mas sua avó acompanhava as radionovelas da época. Aos sábados á tarde, dia do banho mais demorado, seu bisavô, num ritual sistemático ligava Terminado o trabalho, passavam no tanque de roupa, próximo a casa que tinha água da bica sempre escorrendo e se lavavam para o jantar. Em dias de muito frio, lavavam-se em gamelas com água morna na porta de casa. Após um jantar silencioso, rezava-se o terço. Todos os dias. Sem ter opção do que fazer, dominam muito cedo. Seus bisavós mantiveram esse habito até a morte. Acordar muito cedo, almoçar ao meio dia em ponto. Dormir com as galinhas.
Seus avós casaram-se muito jovens. Fizeram uma festa com muitos convidados. Carnearam um novilho e fizeram uma bela festa, tudo registrado em preto e branco pelo fotografo Dejalma. A lua de mel foi em Aparecida do Norte.
            Logo após o casamento ocorreu o incidente do moinho e a mudança do seu bisavô para Ibicaré.
            Seus avós foram juntos. Sua avó, que era muito apegada a sua família não ficou muito feliz, mas aceitou como todas as moças faziam na época. Com umas dezenas de Araucárias que foram compradas do seu bisavô Antonio, a um preço camarada, seu Avô e alguns carpinteiros construíram uma grande casa de madeira, com paredes dupla. Um luxo para a época. Foi lá que eu, suas tias Marli e Cleusa nascemos e  passamos parte da infância.
            A casa era grande. Construída em um terreno desnivelado, tinha duas entradas na parte de cima. Uma dava para a sala de estar, que tinha um sofá grande e anos depois foi adquirida uma televisão, colorado RQ, preto e branca, que tinha como garoto propaganda nada menos que o Pelé.  Havia uma varanda que circundava essa parte da casa, chamávamos de “área” e eu detestava porque tinha que escovar com palha de aço, encerar e lustrar com o escovão todos os sábados. Na outra extremidade da área tinha a porta da cozinha. A cozinha ara a parte mais importante e animada da casa. Tinha uma mesa grande e cadeiras de palha, onde se faziam as refeições, as lições da escola e jogava-se canastra com os vizinhos. Havia 3 grandes janelas, uma em cada parede. Um fogão a lenha esmaltado ocupada o lado oposto da mesa. O fogo era aceso bem cedo e permanecia sendo alimentado até que o movimento da cozinha serenasse, quando se acabava de lavar a louça e seus avós iram tirar a sesta até a fresca da tarde,  antes do retorno à lida. Sempre havia uma chaleira com agua quente para o chimarrão. Nos dias frios dos invernos catarinenses, o fogão era um dos utensílios mais apreciados da casa, pois além de aquecer todo o ambiente, costumava-se assar milho, batatas doce e muito pinhão na chapa. Um guarda louça de madeira, um paneleiro uma pia pequena e um fogão a gás compunham toda a mobília da cozinha, e como era grande, havia muito espaço livre, onde as crianças adoravam brincar, correr e passavam a maior parte dos dias frios e chuvosos.
Do lado sul da casa ficavam os quartos. Eram quatro. Os dos seus avós era o maior. O meu e do de suas tias ficavam no meio e o último ficava vazio e arrumado e intocado para visitas. Em baixo tinha um porão enorme e ficava o chuveiro. A agua quente do chuveiro devia ser despejada em um recipiente próprio que ficava em cima, na despensa, ao lado da cozinha. Esquentava-se a agua no fogão, despejava-se no recipiente e dava a volta por fora da casa até o chuveiro no porão. Bem trabalhoso.
O sanitário, “patente” como chamávamos, era afastado da casa. Era uma casa de madeira em cima de uma fossa. Era muito bem feita e muito limpa. Tinha um tampa de forma que não deixava escapar odores desagradáveis. Todo dia eu tinha que recolher as cinzas do fogão e despejar na fossa, uma medida eficaz de higienização.
A casa de seus bisavós ficava há uns cem metros mais acima e era uma casa de modelo mais antigo. Destacava-se para nós crianças por apresentar algumas peculiaridades que a transformava-se em misteriosa, interessante e ao mesmo tempo assustadora.
A casa tinha um cheiro doce. Nunca soubemos o porque, mas provavelmente era porque no porão havia três grandes “Pipas” onde se armazenava o vinho produzido anualmente. Vinho doce e perfumado de uvas gaúchas. Todo dia eu deveria ir até lá e retirar uma jarra daquele suco alcoólico para seu bisavô e seu avô. Creio que este mesmo cheiro adocicado foi se impregnando na casa no decorrer das décadas.
Na casa de seus bisavôs havia um sótão, com uma grande antessala e dois pequenos quartos em estilo chalés. Num dos quartos estava a primeira cama de seus bisavós com o colchão de palha de milho e os travesseiros de flor de marcela. Havia baús, balanças antigas, capas de chuva de cavaleiros, chapéus, e muita poeira. Como as janelas estavam sempre fechadas, era escuro e tenebroso. Seus bisavôs não gostavam que fôssemos brincar no sótão. Proibiam e raramente deixavam a gente subir. Pra garantir que não desobedecêssemos sempre contavam histórias de “monstros do sótão”. Sempre havia a oportunidade de subir quando estavam dormindo após o almoço, mas a escada de madeira fazia muito barulho e sempre nos denunciava na tentativa de explorar aquele lugar tão fascinante aos nossos olhos.
            Morávamos há três quilômetros da cidade. Éramos vizinhos dos Spoltti. Do lado de Joaçaba moravam o Angelo Spoltti e a comadre Sueli. Do lado de Ibicaré moravam o Miro Spoltti e a comadre Elida. Em seguida eram as propriedades da Nonna, a matriarca dos Spoltti, que já era bem velhinha. Seguindo morava o Gildo Schu, uma família de alemães com muitos filhos, que estudavam na mesma escola que eu. Depois vinham as terras do Salvatore. Não lembro o nome dele. Lembro que pouco antes da cidade morava o Pedro Dotta, que era casado com uma costureira muito boa e sua avó era amiga dela.
            A relação com os vizinhos sempre foi amigável. Mas havia uma espécie de competição no ar. Quem tinha os melhores porcos, as melhores colheitas, as melhores galinhas. Mas acho que era algo saudável.
            Em Ibicaré o forte não era a agricultura, com era em Abdão, mas sim a pecuária, principalmente a venda do leite e a criação de porcos. Foi o momento de grande crescimento dos grandes laticínios e frigoríferos que prosperaram em Santa Catarina, como a Sadia e a Perdigão. Enquanto seus bisavós se dedicaram mais ao leite e a lavoura, seu avô construiu um enorme chiqueiro para criação de porcos, que passaram a fazer parte de nossas vidas.
            O suíno é um animal marcante. Dizem que é muito inteligente, que pode ser domesticado em casa e pode se equiparar aos cães em comportamento. Mas vivendo em cativeiro, em baias com 20 indivíduos, não é a esta lembrança romântica que fica.
A primeira coisa que impregna na vida de um criador de porco é o cheiro de estrume. No caso do suíno o nome correto é “merda” mesmo. Os chiqueiros precisam ser limpos todos os dias. Boa parte do tempo de trabalho com a criação de porcos, nos método antigo daquela época, era a remoção diária de montanhas de estrume que fedem como o humano. Dizem que o olfato é, dentre todos os sentidos aquele que nos remete mais à nossa condição animal. Com nossa evolução ele foi sendo reprimido pelo paladar, visão e tato, mas tem uma ligação importantíssima com nossa memória. Ainda hoje, nas estradas, ao passar um caminhão com porcos o odor me remete imediatamente para minha infância e todas as lembranças florescem imediatamente.
Outra coisa que impressionante são os gritos dos porcos. Parecem-se muito com gritos humanos. E numa criação de grandes proporções como seu avô tinha, os gritos dos porcos eram uma constante em no nosso dia a dia. Gritam quando tem fome, quando tem sede, quando brigam. Você ouve gritos de porcos o tempo todo.
Onde há porcos e merda de porco há moscas. Muitas moscas. O chiqueirão eram sempre construídos próximos às casas, seja por falta de planejamento, seja por questão de praticidade e segurança, o fato é que era como se fossem quase como uma parte da casa. De lá vinham verdadeiros enxames de moscas. Como as pragas do Egito. Em algumas épocas, chegavam a escurecer o teto da cozinha da cada de seu avô. As crianças filhos de criadores de porcos como eu, sabem fazer todos os tipos de brincadeiras com moscas, desde amarrar várias para fazerem levantar objetos, até arrancar as assas e transformá-las em bichos terrestres.
            Mas foi com a suinocultura que seu avô prosperou. Todos se lembram da vez que com uma única venda de uma leva de porcos para a Sadia,  ele conseguiu comprar a vista uma picape da Ford, com o cambio na barra de direção, novinha em folha, que fomos eu e ele buscar na concessionária de Joaçaba.  
            Havia um ritual entre os vizinhos mais próximos. Quando um matava um porco para o consumo próprio, se entregava parte da carne para o vizinho. Como não havia geladeira, era um método eficiente para sempre se ter uma carne mais fresca em casa. Eu tinha a incumbência de sair entregando uma paleta pra comadre Sueli, um lombinho pra comadre Elida, uma costelinha pra Nonna.
            Dia de matar porco era um dia especial. Tinha que coincidir com um dia de chuva ou de pouco trabalho na roça. Geralmente aos sábados. Acordava-se cedo e já se acendia o fogo com um tacho de ferro enorme, de uns 200 litros, com água que ficava fervendo. No dia anterior sue avô escolhia um porco gordo e não muito velho e separava.  Quando a água estava quente ele trazia o porco pelas orelhas e deitava de pernas pro ar. Eu tinha que segurar as pernas de traz do porco. Sua avó segurava as pernas da frente e seu avô segurava a cabeça junto ao chão. Com a faca prateada, um punhal que seu avô só usava pra carnear animais, ele localizava exatamente onde o coração estava batendo e enfiava rapidamente a faca. O porco gritava e esperneava muito, mas por pouco tempo. Morria rápido. Com um pedacinho de pano trancava-se o buraco para não sair o sangue. Com canecos pegava-se a água  fervente do tacho e jogava-se no porco já morto. Com uma faca grande ia-se raspando todos os pelos e a pele que saiam com facilidade devido a agua fervente. Raspava-se todo o porco. Feito isso, sempre em cima de um tablado, depois de tudo limpo, colocava-se o porco de barriga pra cima e seu avô  começava a abrir o porco. Inicia-se pelo pescoço e serra-se o osso do peito. Com um caneco, retira-se todo o sangue que derramou na caixa torácica. Será usado para fazer chouriço. Uma vez aberto o peito, retira-se o coração, rim, fígado, que já iam para um espeto para serem assados ainda de manhã no braseiro ao lado, e os demais órgãos, como pulmão, estomago, vesículas que eram reservados para fazer sabão. Corta-se a barriga e retira-se cuidadosamente todo o intestino, que já é separado, lavado, fervido para mais tarde embutir o salame. O próximo passo é cortar com um machadinho a coluna vertebral do porco partindo-o longitudinalmente em dois. Corta-se a cabeça e reserva para ser assada inteira, iguaria predileta de seu avô. Amarra-se os pés traseiros e suspende as duas metades. Com faca de lamina fina e bem afiada, inicia-se o processo de extrair a pele e a camada de gordura que cobre toda a carne do porco. Os nacos de toucinho são retirados e levados a uma mesa no porão onde sua bisavó e as vezes algumas vizinhas irão cortar o toucinho em cubos e devolvê-los para o mesmo tacho que ferveu a água, e agora irá fritar o torresmo para obter a banha, utilizada em larga escala no lugar do óleo de soja ou para armazenamento da carne. Uma vez finalizado a extração do toucinho, passa-se a destrinchar os pedaços de carne. As paletas e o Pernil, partes com maior quantidade de carne eram desossados e moídos manualmente para a confecção do salame. As partes  menos carnosas como  o lombo, costelas, eram cortadas em pedaços menores e parte era distribuída aos vizinhos, outra parte já era assada e guardada e outra ainda era frita com o torresmo para ser armazenada junto com a banha. Já entrando na tarde, o torresmo ficava pronto. A gordura era retirada e coada em panos de pratos brancos e armazenadas em latas. Em uma prensa, retirava-se o máximo de gordura dos torresmos que eram separados em outras latas. Nessa altura as tripas já lavadas e secas eram cortadas no tamanho desejado do salame. Os homens moíam a carne, preparavam o tempero e misturavam os compostos para o salame. As mulheres enchiam as tripas com a carne moída. Eu devia por uma semana ficar mantendo um fogo com ramos verdes para defumar os salames e afugentar possíveis moscas. Sua bisavó com os restos das vísceras, cascos, ossos, e um pouco mais de sebo de boi que compraram antes, no mesmo tacho iniciava o processo de confeccionar o sabão. Era uma verdadeira operação de alquimia. Ela calculava tudo mentalmente a quantidade de soda caustica necessária para dissolver os ossos e as gorduras e depois de algumas horas de ração em água fria iniciava um cozimento que as vezes durava uns dois dias. Depois cortava os sabão e pendurava em tábuas em cima do tanque de lavar roupa.

            Apesar da vida dura do campo, de não ter nada mecanizado, de que tudo era feito na força bruta, seus avós eram um casal bastante sociável. Iam constantemente em bailes, festas de Igrejas e bailes do chopp. Colecionavam muitos canecos destas festas. Sempre havia uma pessoa morando, “parando” na casa de seus avós. Ou era um sobrinho que vinha pra poder estudar em Ibicaré, ou porque queria sair da família dos pais, ou por necessidade mesmo. Os filho da tia Lina vários deles passaram períodos na cada de seus avós. Angeline e Gininha, duas moças de famílias muito pobres das terras de seu bisavô Antonio Bezem, praticamente foram as babás minhas e de suas tias. Tia Cata, sempre visitava sua avó, e a presença de parentes sempre foi uma constante, apesar da distância do restante da família

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