sábado, 20 de junho de 2015

SER SUJEITO
Chovia. ​De dentro da repartição via os pingos chorando pela vidraça. Parecia que compreendiam o nó no peito, o engasgo que sinto todos os dias enquanto "copio e colo" súmulas respondendo aos pedidos de pobres diabos atrás das migalhas do sistema previdenciário. Nada faz sentido. Tudo é estranho pra mim. Olho para o relógio do micro. Está congelado, como a chuva fina com vento "minuano" lá de fora. ​Mesmo assim ​um sopro de alegria tomava conta de minha alma. Em breve poderia sair deste lugar e pegar minha bicicleta e enfrentar a chuva e o transito de SP​​Transito não é problema, faz parte da cultura paulistana, e geralmente o levamos, para onde vamos nos feriados e férias escolares. Chuva é algo inédito por aqui. Nos assanha. Ficamos eufóricos e saímos às ruas numa espécie de comemoração, devidamente vestidos com roupas impermeáveis de alguma marca famosa, lógico.​
Descobri que andar de bicicleta transforma a vida. ​Já nas primeiras pedaladas ​você percebe que ​algo ​está diferente. Cada ação sua já não é mais repetitiva, pré determinada, fiscalizada, fragmentada. Há um todo entre você, a bicicleta, o transito, a chuva, a cidade. ​Não há uma máquina te controlando nem um chefe dizendo o que fazer. Pedalando não há meta a ser cumprida, não se atende telefone, não se lê nem envia mensagens no wat zap nem há como compartilhar no Face. O controle passa a ser somente seu. A vida é sua.​ A vida é agora. ​​Andar de bicicleta na cidade de São Paulo é uma experiência de vida. Esvazia-se a mente, e uma nova percepção passa tomar o lugar de um mundo tão padronizado e adestrado no qual estamos inseridos. Os sentidos afloram. Os músculos frouxos do "homo sentadus' dá lugar à tensão, energia, e primitivos estados de atenção. O olfato, tão retraído pela mesmice do ar condicionado descobre mundos de odores e cheiros diversos. Frituras e o aroma fresco de fermento de cevada dos copos de cerveja nas mesas na calçada da Augusta. Mais a frente fragrância de eucalipto nas antigas e bolorentas saunas que ainda funcionam com suas luz vermelha na porta. Ensopado de carne vindo das quentinhas dos peões de obra nos vários arranhas céus que erguidos freneticamente. O centro de SP cheira a centro. Cheiro de comida de rua onde há movimento. Perfumes doces e baratos das putas nas calçadas.  De maconha nos cantos das praças e de urina e fezes nos escuros viadutos e becos. Da ponte das bandeiras que cruza o rio Tiete é possível ver a espessura do ar, com lufadas de podridão que sobem escuras do leito morto. Na periferia volta aromas agradáveis de jantares de mãe e dos petiscos nos centros gastronômicos da zona norte. E na subida do Tucuruvi, novamente o cheiro doce do eucalipto que gotejam das frondosas arvores da espécie que margeiam a avenida.
Andando de bicicleta você interage com o transito de uma outra forma. O outro deixa de ser um Fiat, um Wolkswagem, um Mercedes. Já é uma mãe buscando o filho na escola, um trabalhador voltando pra casa. Um casal indo namorar. Passamos a ver quem está dentro de um veículo. Com a bicicleta é possível se ver os olhos dos motoristas que te dão passagem. A bicicleta é e ao mesmo tempo não é um veículo. E a eterna oposição e luta por espaço dá lugar a uma coisa nova.

A bicicleta se torna um instrumento que quebra, por algumas horas, essa vida predicada que todos levamos no dia a dia. O andar de bicicleta, é obvio, não levará a nenhuma mudança substancial. Mas ajuda a entender o quanto estamos deixando de ser sujeitos de nossas vidas. Aceitando uma mediocridade em troca de um "ter" inconsistente, que "parece solido, mas que se desmancha no ar", como diria o filósofo.

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